A pesquisadora Rebecca Neaera Abers é professora titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. Nascida na Califórnia, ela frequenta o Brasil desde 1988 e mora definitivamente no país há quase 30 anos. “Eu acho que entendo menos os Estados Unidos do que o Brasil”, diz, em entrevista ao INCT Participa antes da Anpocs.
No evento que acontece neste ano na Unicamp, em Campinas, Rebecca Abers recebeu na noite de quarta-feira, 22 de outubro, o Prêmio Anpocs de Excelência Acadêmica Gildo Marçal Brandão em Ciência Política, um dos mais importantes reconhecimentos da área.
Graduada em Social Studies, pela Harvard University, com mestrado e doutorado em Planejamento Urbano, na University Of California Los Angeles, ela atualmente é co-coordenadora do grupo de pesquisa sobre Relações Sociedade e Estado (Resocie), co-editora-chefe da Revista Brasileira de Ciência Política (RBCP) e integrante do comitê gestor do INCT Participa.
Sua produção acadêmica é voltada principalmente para relações entre movimentos sociais e o Estado, ativismo e criatividade política, transformação institucional, burocracia, políticas públicas e políticas participativas.
É autora do livro “Inventing Local Democracy: Grassroots Politics in Brazil” (Lynne Rienner, 2000) e co-autora, com Margaret E. Keck, de “Practical Authority: Agency and Institutional Change in Brazilian Water Politics” (Oxford, 2013, lançado em português pela Editora Fiocruz em 2017). Organizou o livro “Ativismo institucional: criatividade e luta na burocracia brasileira” (Editora UnB, 2021) e o co-organizou, com Marisa von Bülow e Débora Almeida, o livro “A disputa pela democracia no Brasil: ativismos em contextos turbulentos” (Editora Zouk, 2023).
Leia a entrevista com Rebecca Abers.
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Como está sendo esse reconhecimento para você?
Inacreditável. Na Anpocs que premiou a Evelina Dagnino, nossa grande referência no INCT Participa, uma das fundadoras da área no Brasil, eu lembro de olhar e pensar “que coisa linda deve ser ganhar esse prêmio”. É um reconhecimento gostoso. Convidei a Marisa von Bulow para me apresentar. Eu só contei para ela e ficamos sem poder contar para ninguém por dois meses. Eu achei bom. Foram várias etapas para sustentar a felicidade até finalmente receber o prêmio.
Sobre sua trajetória, quando você veio para o Brasil pela primeira vez?
Foi um caminho torto. Eu sou de Los Angeles e estudei em Harvard. Vim para o Brasil pela primeira vez em 1988, com uma bolsa que me dava muita liberdade. Fui para Belo Horizonte, no Centro de Planejamento e Desenvolvimento Regional da UFMG. Eu tinha feito estudos sociais e meu foco era em saúde. Esse pessoal pesquisava malária na Amazônia, mas acabei me envolvendo com estudos da urbanização na região. Passei dois anos no Brasil, parte em Belém. Eu queria estar na Amazônia. Fiz pesquisa em Roraima sobre o boom de ouro e sobre como o garimpo sustentava o crescimento de Boa Vista. Meu mestrado foi sobre isso. Eu voltei para os Estados Unidos, para fazer pós-graduação na UCLA, querendo estudar planejamento urbano e transformar pesquisa em política pública, fazer algo com impacto.
Como foi esse período em Boa Vista?
Era uma aventura, um período muito interessante. Na época em que estávamos lá, o Collor mandou a Polícia Federal fechar o garimpo. Boa Vista tinha crescido loucamente em pouco tempo, era uma cidade totalmente espalhada, sem infraestrutura, tudo caro. Eu entendi como a economia sobrevive de práticas deletérias para o meio ambiente e para as populações indígenas. Tem muitas pessoas pobres dependentes do garimpo. É complexo.
Então você vai para o planejamento urbano na UCLA.
Sim, até pelo meu orientador, o John Friedmann, um teórico com uma proposta de planejamento urbano radical, de baixo para cima, crítica das tradições de cima para baixo. Ele era uma pessoa influente e fiquei interessada em estudar não só as condicionantes econômicas, mas os processos políticos de transformação do urbano. Isso foi em 1992, quando terminei meu mestrado e permaneci no mesmo departamento para o doutorado.
E como você vai parar em Porto Alegre e na participação?
Chego em Porto Alegre em 1993, época em que PT estava fazendo experiências em diversos governos locais. Todo mundo dizia que algo diferente estava acontecendo em Porto Alegre. O partido, em seu primeiro grande sucesso eleitoral, havia ganho 36 prefeituras em 1988, como as de São Paulo, Porto Alegre, Santos e Santo André. Eu fui para seis ou sete dessas cidades analisar diferentes experiências. E o tema da participação foi aparecendo. Não estava claro que era o que eu estava procurando. Escrevi um artigo sobre essas políticas participativas. Nem todas bem sucedidas. Fiz minha tese de doutorado para estudar o que dá certo e por quê.
Por que é importante entender o que dá certo?
Eu sou muito influenciada por um economista austríaco chamado Albert Hirschman, que eu conheci no mundo do planejamento. Ele estudava América Latina e tinha um conceito chamado possibilismo, no qual defende que é importante estudar o que é provável, mas é igualmente importante estudar o que é improvável, porém possível. Sem olhar para o que é inesperado, sem entender porque essas coisas acontecem, a gente não consegue entender a sociedade. Essa ideia conecta com minha história, essa busca não pelo idealismo ou pelo utopianismo, mas por compreender o que é possível.
E de Porto Alegre você vai para onde?
Voltei a Los Angeles para escrever minha tese de doutorado. É o momento em que começo a estudar essa literatura da participação. A Carole Pateman, referência na área, foi da minha banca, então tive essa influência. Comecei a estudar movimentos sociais, sociedade civil, associativismo, esses temas de mobilização. Me aprofundei em instituições políticas e suas transformações. Minha tese buscou entender o que eu chamava de uma espécie de círculo virtuoso de causalidade entre a transformação dentro do Estado, que foi feito para permitir que se pudesse criar uma política participativa de verdade. Mas isso só deu certo porque teve um efeito transformador na sociedade civil, que se mobilizou. Peter Evans fala em sinergia entre Estado e sociedade. É assim que participação, movimentos sociais e a relação entre sociedade e Estado são meus temas até hoje.
Quando você volta para o Brasil?
Em 1997, meu ex-marido, que era brasileiro, teve uma ideia louca de abrir um bar em Natal. Depois mudamos para Brasília, onde nasceram meus filhos. Eu ainda estava na área de planejamento urbano, mas não me sentia muito bem nesta disciplina. As pesquisas e as construções teóricas do planejamento urbano não ofereciam muita ajuda para entender processos políticos. Eu comecei a pensar que estou mais na área da sociologia política ou da ciência política, porque quero estudar processos políticos. Eu não sabia na época que a maior parte dos cientistas políticos não estudam processos, estudam relações e correlações, mas não o que acontece entre a causa e efeito.
E como foi o caminho para a UnB?
Eu fiquei nove anos em Brasília antes de passar em concurso público. Na época, desde o governo FHC, havia uma moratória de contratação nas federais. Me mantive na academia através de uma grande pesquisa, que coordenei com a Margaret Keck, professora de ciência política da Universidade Johns Hopkins. Muita gente acha que ela foi minha orientadora. De certa maneira foi, mas eu só a conheci depois do doutorado. Trabalhamos num projeto que era para compreender os comitês de bacia, em que sociedade civil, Estado e setor empresarial discutem a regulação e proteção das águas nas bacias hidrográficas.
Como funcionam esses comitês?
Em 1998, uma lei criou um Sistema Nacional de Gestão de Recursos Hídricos e uma nova infraestrutura de gestão ambiental e de uso da água como recurso para produção. Era um campo emergente, de espaços participativos. Com Margaret, ajudei a criar o projeto Marca D´Água, que por anos foi minha fonte de renda principal. Éramos cerca de 40 pessoas estudando 23 bacias hidrográficas. Margaret, nos EUA, era a inspiração intelectual. Eu fazia o dia a dia da coordenação. Escrevemos o livro “Autoridade Prática”, em que discutimos a ideia de construção política de instituições. Dessa vez, não estudamos casos de sucessos, porque era difícil criar esses comitês. Focamos na nova estrutura de gestão de recursos hídricos, que ia muito além da participação da sociedade civil nos debates.
Qual é o foco desse livro?
O livro é sobre como atores criativos constroem instituições que não nascem só porque foram legalmente constituídas. Estuda o lugar que a ação tem na vida social. As ciências sociais tendem a achar que, ou indivíduos não têm qualquer liberdade nas suas ações, são vítimas de grandes estruturas de poder em que os únicos que têm agência são os poderosos, ou, do outro lado, que cada indivíduo pode fazer o que quiser, baseado no seu interesse, como se o mundo fosse um mercado livre. Se você não aceita nenhuma destas abordagens, é mais difícil achar uma explicação teórica, porque é mais difícil prever o que as pessoas vão fazer. Se as pessoas são egoístas e racionais, você consegue fazer um modelo para prever a sua ação. Se são determinadas por grandes estruturas, só tem que saber quais são as estruturas. Mas se as pessoas estão lidando com problemas emergentes, é muito difícil prever como vão agir, e talvez, por conta desta imprevisibilidade, as ciências sociais evitam esta perspectiva.
E sua trajetória na UnB?
Entrei na UnB, no Ipol e na ciência política em 2006. Em 2012 criei o Resocie. Chegamos à conclusão de que a literatura sobre movimentos sociais e sociedade civil no Brasil estava totalmente focada no debate sobre participação e instituições participativas, sem discutir movimentos sociais, de protesto, de contestação, que não necessariamente participavam desses espaços. Estávamos nos primeiros governos do PT, em que houve uma ampliação das instituições participativas, mas muito aquém do que se desejava e se esperava nos anos 1990, quando o PT tinha sido o centro de inovação de democracia participativa. E nos governos federais o partido foi menos criativo, não havia um grande projeto participativo. Os avanços vinham de experiências dos próprios movimentos, que estavam buscando influenciar o governo. Então a gente começou a pensar sobre o que isso significava.
Nessa época o estudo sobre os movimentos sociais começou a crescer?
Isso estava acontecendo ao mesmo tempo em que a Evelina Dagnino publicou um livro, em 2006, sobre a construção democrática na América Latina. E ela trabalhou com várias pessoas que hoje são do INCT Participa, como a Luciana Tatagiba, a Carla Almeida, a Carla Martelli. Elas olhavam como atores de diferentes tipos de movimentos estavam transitando entre o Estado e a sociedade. Na mesma época, Adrian Gurza Lavalle publicou um artigo dizendo que os movimentos sociais estavam aí, continuavam importantes.
Que outro trabalho você destaca nesta época?
Em 2014, foi publicado um artigo que escrevi com a Luciana Tatagiba e a Lizandra Serafim sobre as diferentes maneiras pelas quais movimentos sociais de diferentes áreas interagiam com essa abertura do Estado e como diferentes tradições de relações com o Estado eram repensadas e adaptadas. Os movimentos não apenas ocupam instituições participativas, mas reformulam o que chamamos de repertórios de interação entre sociedade e Estado. Esse artigo teve um surpreendente impacto, até hoje é o mais citado da revista DADOS.
A certa altura da nossa discussão sobre o papel de movimentos sociais no interior do Estado, Margaret Keck fez um comentário: “Será que as estratégias de ativistas que saíram dos movimentos sociais para assumir cargos nos governos são diferentes das de burocratas que não vieram de movimentos sociais?”. Essa pergunta me sacudiu profundamente. Decidi fazer outra pesquisa, em que a maior parte dos atores eram burocratas concursados sem história de ativismo em movimentos sociais, e comecei a coletar casos de ativismo institucional. Essa é a base de um livro organizado com alunos do Resocie, finalizado em 2018 e publicado em 2021. Este livro foi uma oportunidade muito legal de construção de uma discussão teórica, a partir de uma disciplina que eu dou sobre criatividade política, de pensar o que é ativismo.
E o que é ativismo?
Eu mudo de ideia sobre o que é ativismo o tempo todo. As pessoas me criticam, e eu mudo. Deixo todo mundo louco. Eu gosto desse processo, não tenho necessidade de ficar com a ideia que eu tinha antes. Eu gosto de mudar [risos]. No livro, Ativismo Institutional, por exemplo, eu disse que ativismo tinha que envolver ação coletiva. A Marisa von Bulow me convenceu que não, que no ativismo digital acontecem processos que agregam pessoas, mas que não podemos chamar de ação coletiva. Então eu tirei a ação coletiva do conceito em meu texto mais recente.
E como foi no governo Bolsonaro?
Quando começou o governo Bolsonaro, eu estava acompanhando uma política na área ambiental e outra na saúde da mulher, áreas em processo de desmonte, mesmo no governo Dilma. Com o governo Bolsonaro, muitas pessoas não me atendiam mais, meus contatos já tinham ido embora, ou eu tinha que fazer reuniões sem gravador, sem anotar, ao ar livre. As pessoas estavam apavoradas pelo ambiente de perseguição política e por dizer algo que poderia dar um processo administrativo. Eu não queria fazer pesquisa que pudesse machucar quem eu estava pesquisando. Em seguida, veio a pandemia e eu e a Marisa criamos um repositório que mapeava o que a sociedade civil estava fazendo em resposta à crise. Esse material virou um projeto de pesquisa. A ideia é entender como o negacionismo afeta a maneira como os movimentos sociais constroem estratégias anti-negacionistas.
Voltando às origens, como você foi parar em Harvard?
Eu fui para Harvard porque eu fui aceita e não tive escolha. Era impossível dizer não. Foi uma experiência difícil, eu não era daquele mundo, daquela cultura, foi socialmente estranho, era um ambiente pesado, que eu saí me sentindo incompetente. Foi super formativo, aprendi muito, mas não foram tempos felizes de jeito nenhum.
E o que você estudou lá?
Fiz estudos sociais, um programa criado por uma dissidência de sociólogos contra a sociologia americana tradicional. Um curso alternativo, interdisciplinar, em que tinha que estudar economia, história, ciência política. Enquanto ainda estava no ensino médio, nos anos 1980, eu comecei a participar de movimentos relacionados à imigração e contra as guerras na América Central. Durante a faculdade fui para a Guatemala estudar espanhol e fiz trabalho voluntário em um hospital. Foi um momento “uau, quero trabalhar com saúde”. Algo que nunca realmente foi para frente.
E como surgiu seu interesse pelo Brasil?
Eu queria passar o ano depois de me formar em algum país da América Latina. Eu estudei muito a região, fiz todos os cursos. Vim para o Brasil sabendo que era um país grande e diverso. Eu queria algo dinâmico e complexo.
Como você se sente com o Brasil?
A experiência de vir de outro lugar e conhecer profundamente um outro país é fascinante. Eu acho que entendo menos os Estados Unidos do que aqui. Eu cheguei no Brasil em outubro de 1988, no momento da promulgação da nova Constituição. De certa maneira, eu só conheci o Brasil da democratização, de um projeto que me parecia de um progresso democratizante constante. Eu achava incrível a capacidade de o Brasil lidar com crises. Os EUA foram, durante muito tempo, uma sociedade incapaz de fazer mudanças. No Brasil, as coisas aconteciam, havia uma certa adaptação à turbulência. Ao mesmo tempo, tem a ideia de que o “Brasil não é para principiantes”. Eu tenho essa sensação de não compreensão. Mas também não compreendo o país que nasci e fui criada, porque eu vou entender o Brasil? Talvez não seja possível entender países.
E como foi lidar com as destruições do governo Bolsonaro?
O fim desse ciclo de progresso democrático me mostrou que eu era mais inocente do que imaginava. Eu era uma das pessoas do campo da participação que apontava mil problemas, mas quando começou a surgir essas forças de destruição do projeto democrático participativo, da agenda de inclusão e da justiça social, eu realmente achei emocionalmente difícil de lidar, eu percebi o quão investida eu estava. Nós passamos a defender como necessário o que antes nós defendíamos como insuficiente. Se tivesse acontecido no início do meu período no Brasil, quando não tinha tanto compromisso com o país, eu teria falado “olha que interessante, uma reviravolta política”, mas depois de 30 anos eu sofri muito.
E o que fazer agora?
Há bastante consenso sobre o diagnóstico e pouca ideia sobre o prognóstico. O diagnóstico é que não é suficiente reconstruir a participação, tem que transformá-la. Antes da direita tentar desmontar as instituições participativas, a gente estava muito crítico dos modelos que existiam, que não haviam conseguido uma democratização mais profunda da sociedade, tanto é que as pessoas não sabiam que existiam os conselhos. O progresso democrático não estava chegando a pedaços enormes do Brasil, às periferias urbanas, indígenas, rurais. Esses processos também não estão adaptados para o mundo digital e as novas formas de sociabilidade. Não está chegando na base e nas redes. O Lula 3 tem um projeto de reconstrução da participação. Como superar essas questões? Nós temos menos clareza. Quando eu me desespero, volto para Hirschmann, e procuro exemplos do que é possível. É o que acho que temos que fazer agora — é um leme orientador.
Rebecca Abers em evento





