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É preciso compreender as reconfigurações no campo religioso, diz pesquisadora do INCT Participa

A pós-doc pela CAPES do INCT Participa Luana do Rocio Taborda teve a sua tese de doutorado "Associativismo religioso no Brasil e em Portugal: Incentivos e Repertórios de atuação nas arenas públicas de associações católicas no 'coração da Igreja'" indicada no "Concurso Brasileiro Anpocs de Obras Científicas e Teses Universitárias em Ciências Sociais 2025". 

Ela concedeu uma entrevista ao INCT Participa sobre sua pesquisa, a importância dessa indicação, o papel do INCT Participa e de suas orientadoras em sua vida acadêmica e também falou sobre os desafios de sua área de pesquisa.  

Leia os principais trechos. 

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Como surgiu seu interesse no associativismo religioso no Brasil e em Portugal? Por que comparar os dois países? Qual a importância de estudar essa área?
Meu interesse começou na graduação, onde trabalhei em uma associação religiosa atuante em uma região periférica de Florianópolis. Ali pude conhecer o “chão de fábrica” e o trabalho das organizações da sociedade civil junto a fóruns e conselhos. Percebi que embora as associações religiosas ainda sejam protagonistas no campo associativo e muito ativas em instituições participativas, havia uma lacuna nos estudos sobre elas. No mestrado, realizei um estudo mais de âmbito local sobre associações católicas, evangélicas e espíritas. Já na tese de doutorado, dada a oportunidade de realizar em regime de cotutela, acolhi o desafio de realizar um estudo comparativo percebendo as configurações do associativismo católico nas duas primeiras décadas dos anos 2000 no Brasil e em Portugal. Compreendendo que há uma tendência das ciências sociais em priorizar estudar o “novo” (atores, processos, etc.), procurei explicar quais dinâmicas as associações católicas, as mais tradicionais do campo, tem vivenciado, por entender que é preciso estudar quem permanece, e mais: como fazem isso, principalmente em conjunturas críticas.

O que sua tese trouxe de novidade ao tema? Quais foram suas principais descobertas? Como suas orientadoras te ajudaram nesse processo?
Sobre os principais resultados da tese, eu anexei a esta entrevista o Press Release que entreguei junto com a tese, duas páginas descrevendo as principais descobertas.
Mas gostaria de destacar a importância do papel das orientadoras. Tive a ventura de ter como mentoras estas duas mulheres inspiradoras e brilhantes. A Lígia Lüchmann, com quem trabalho desde 2014 e não cesso em admirar sua excelência acadêmica e postura. Sendo um dos principais nomes do associativismo, fica bastante claro como esta tese e toda minha trajetória foi influenciada e é devedora de seu trabalho. Já a Guya Accornero, conheci durante meu doutorado sanduíche no ISCTE-IUL em Lisboa. Ela me içou a novos horizontes teórico-metodológicos, incentivando a abraçar a criatividade sem descuidar com o rigor, e me apoiou de tantos jeitos. Gostaria de dizer ainda que, para além da orientação acadêmica, a sensibilidade e acolhimento destas mulheres permitiu que eu conseguisse concluir a tese, apesar de tantos desafios.

O que você aprendeu durante o processo de escrita da tese? Quais seus próximos passos na área acadêmica? Pretende continuar estudando associativismo religioso?
O principal aprendizado foi entender como diferenciar, com vigilância epistemológica, o que é responsabilidade minha no processo de pesquisa e de escrita, e o que seriam características ou limitações do objeto/campo. Por muito tempo eu considerei que era eu quem não estava sendo capaz de compreender, até que percebi que o que estava vendo já era um resultado da própria pesquisa: as associações católicas têm vivenciado processos complexos, marcadas pela ambivalência com múltiplos projetos e intencionalidades coexistindo e, portanto, procuram se adaptar a depender de conjunturas, atores envolvidos, escala (local, nacional), incentivos e demandas, visando sobrevivência.

Atualmente estou como pós-doc no INCT Participa atuando no Projeto “Participação Social no governo Lula 3”, sob supervisão das professoras Carla Martelli (UNESP) e Carla Almeida (UEM). A investigação aloca-se no eixo Participação, que também é um dos meus principais interesses de pesquisa. A oportunidade do pós-doc veio num momento muito propício, pois sentia que precisava estudar outros objetos, depois de tantos anos investidos no associativismo religioso. Mas pretendo, sim, continuar estudando o associativismo religioso, principalmente o evangélico, dado que tenho uma grande quantidade de material oriundo da pesquisa que “não coube” na tese e sinto responsabilidade de publicizar estes dados.

Qual a importância dessa indicação? Como você recebeu e como isso te motiva?
Foi uma grata surpresa, dado que conheço a qualidade do trabalho dos meus colegas do PPGSP – UFSC. Esta foi a segunda indicação da tese, a primeira foi em Portugal, ao prêmio da Associação Portuguesa de Ciência Política (APCP). Senti como um reconhecimento público por tantos anos de intenso trabalho. O processo de uma tese tende a ser bastante solitário, e em incontáveis momentos senti insegurança sobre o que estava fazendo. Compreendi que estas incertezas se devem a um estranhamento com o ambiente acadêmico, comum aos “excluídos do interior”, uma sensação de falta de pertencimento e de ser impostora. Venho de uma família de pequenos agricultores, trabalhei muito desde criança e estudar era um luxo. Um dos meus primeiros pensamentos nos dias após a defesa da tese foi o de que meu avô era analfabeto, mas sua neta é doutora. Portanto a nível pessoal a boa recepção da tese me motiva a confiar mais no meu trabalho e nas minhas escolhas.

Entendo ainda que essa indicação é também produto de toda a excelente formação acadêmica que recebi. Sempre digo que me sinto sob os ombros de gigantes, de todas/os que têm trabalhado incansavelmente no campo de pesquisas sobre movimentos sociais, participação e ação coletiva, principalmente aos membros do NPMS (UFSC) e do CIES em Portugal (ISCTE-IUL). Atesta também a importância do apoio institucional e das agências de fomento. Ingressei na UFSC como cotista de escola pública, trabalhei durante toda a graduação, mas desde o mestrado pude me dedicar integralmente à pesquisa e aproveitei todas as oportunidades, conseguindo respaldo institucional e financeiro para concretizar esta investigação, com recursos do CNPQ e da FCT (Portugal).

Qual o cenário do estudo do associativismo religioso no Brasil? Qual a contribuição que você vê fazendo na área e no INCT Participa? 
O associativismo tem histórico de ser uma área de pesquisa mais “periférica” no campo de estudos. Mas configura uma exigência empírica: as associações fazem parte da vida de milhões de brasileiros, o número de organizações da sociedade civil está há décadas em curva de crescimento, com tendências de pluralização de áreas, presença geográfica, práticas e configurações que impressionam. As associações estão na base das instituições participativas, das redes de ativismo, de forma que precisamos de maiores esforços para explicar melhor as dinâmicas vivenciadas. Mas estamos falando de um objeto de estudo difícil de ser explicado, principalmente pela falta de dados, pela fluidez, pelos múltiplos tipos organizacionais (formais e informais), por serem multifocais, dentre outras dimensões.

E falando mais especificamente sobre as associações religiosas, trata-se de subgrupo composto ao mesmo tempo pelas associações mais antigas e pelo maior percentual daquelas criadas nas últimas décadas, tem presença e relevância pública, principalmente na execução de políticas sociais. Dado o cenário atual de maior presença e influência de atores religiosos nas arenas públicas brasileiras, percebe-se a necessidade de compreender como as intensas reconfigurações do campo religioso e político impactam as configurações e os repertórios das associações religiosas. Mas como eu discuto na tese, estudar o religioso é uma forma de profanar o sagrado, e, portanto, traz desafios específicos. Pretendo com meus estudos trazer contribuições também quanto a estratégias metodológicas para estudar estes atores. 

Por fim, gostaria de acrescentar que o INCT Participa é um passo enorme neste sentido: ao adotar o associativismo como eixo e promover tanto parcerias como suporte institucional e financeiro, acredito que será um marco, um momento de virada para a elaboração de diagnósticos que reflitam as ecologias associativas brasileiras. Veremos nos próximos anos os notáveis produtos de todo o intenso trabalho que tem sido realizado, por tantas pessoas. Me sinto privilegiada em fazer parte disso.

Luana Taborda durante o VI PDPP, em Brasília

 

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