Acaba de ser lançado o livro “Negacionismos & Extrema-Direita”, pela editora Telha, de autoria de José Szwako, pesquisador do IESP-UERJ, NDAC/CEBRAP e vinculado ao INCT Participa. A obra examina como discursos reacionários se articulam contra a ciência, a democracia e os direitos e explora as estratégias e os atores que sustentam essa dinâmica.
Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, José Szwako investiga a história da sociedade civil no Brasil.
Com J. L. Ratton, José Szwako publicou o "Dicionário dos negacionismos no Brasil" - finalista do prêmio Jabuti 2023. É editor da "Coleção Sociedade Política" (IESP-EdUERJ); criador e coordenador da Especialização em Política e Sociedade (IESP-UERJ).
Leia entrevista do INCT Participa com o autor.
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Como surgiu a obra?
Quando houve a coincidência entre pandemia e crescimento da extrema-direita no país, precisei repensar a agenda de movimentos e de políticas públicas que eu vinha estudando havia 15 anos. A agenda de movimentos sempre foi muito dedicada a movimentos progressistas. O desafio central da pesquisa sobre negacionismos é entender se eles eram movimentos como a gente entende outros movimentos, ou seja, organizados em redes, com militância, identidade. Um achado central do livro é que o negacionismo não é bem entendido como um movimento. A ideia de movimento, apesar de parecer simples, requer ação coletiva e racionalidade. O negacionismo é uma ação coordenada, sem dúvida, mas cujo fundamento não é uma identidade compartilhada que produz uma ação, como movimento negro, feminista, antifeminista. Qual é o fundamento dessa ação? É isso que o livro tenta responder.
Qual a “verdade” que o negacionismo nega?
Toda essa investigação me obrigou a dialogar com os estudos sociais da ciência, e você percebe que a própria ciência também tem seus fundamentos não institucionais, como ideológicos, morais, eventualmente religiosos, então, em uma versão mais contemporânea da crítica da ciência, ela não coincide com a verdade, mas sim é produtora de novos consensos. Usando o termo popperiano, ela é uma fabricação de proposições ou de hipóteses, ou seja, esses consensos são por definição instáveis. Daqui a 30 anos ou menos (espero que não seja daqui a cinco anos), alguém vai dizer que a minha perspectiva é limitada e precisa ser repensada, assim como nós estamos fazendo com as outras gerações de cientistas sociais e políticos. A gente não tem uma relação religiosa com a ciência, a gente não procura nem busca a verdade. Qualquer cientista mais ou menos reflexivo sabe bem disso.
Mas como o negacionismo age, então?
Existem consensos muito mais estáveis que outros. Por exemplo, de que o HIV tem conexão com a Aids, isso vai ser quase impossível que alguém diga “olha, não tem a ver”, assim como é um consenso que o tabaco tem uma grande probabilidade de levar à câncer. O que os negacionistas fazem não é negar a verdade, porque a verdade só existe na cabeça de uma pessoa que não entende a ciência. Eles estão produzindo falsas dúvidas, porque a dúvida é constitutiva da nossa prática. Então eles vão lançar dúvidas onde já existem consensos estabelecidos, por exemplo, sobre o aquecimento global e o fato da Terra ser redonda. Ao mesmo tempo, os negacionismos emulam, copiam, mimetizam a ciência. Não só a ciência, mas também o jornalismo, outra instituição que atravessa os textos do livro. Se você abre um site negacionista, a lógica de produção de notícias parece com a de um site de notícias. Tem toda uma produção estética de uma ciência deles.
E eles conseguem fazer isso?
A extrema-direita, ao contrário do que se imagina, consegue ter eficácia devido ao sucesso público da ciência, e não devido à sua suposta crise. Existe uma crença muito grande na ciência. Esses grupos, organizações, movimentos e partidos de extrema-direita usam a ciência dentro de seu repertório para deturpá-la, para falsificá-la, então eles estão mostrando o sucesso que a ciência tem para o público mais amplo, que é rapidamente convencido de que algo é científico. Uma frase muito utilizada na retórica negacionista é “estudos mostram que”, então eles usam isso porque a ciência é uma fonte de crédito na sociedade, e não ao contrário. Eles sabem que a chance de persuadir seu público aumenta ao usar a ciência.
Junho de 2013 foi o pontapé inicial desses movimentos negacionistas no Brasil?
Ao contrário do que a gente imagina, 2013 já é o produto, não produtor, de uma série de relações políticas anteriores, sobretudo de uma insatisfação das esquerdas em relação ao governo, tanto que quem dispara 2013 é uma fração progressista da sociedade civil. Simultaneamente há uma insatisfação com os avanços de um tipo de política pública que mexeu no interesse dos militares, como a dos direitos humanos. Não é trivial o desalinhamento das Forças Armadas em relação ao governo Dilma. Isso me parece central, sobretudo na emergência do Bolsonaro como figura pública. As pesquisas da Angela Alonso e da Camila Rocha mostram que as direitas já estavam organizadas. A Comissão Nacional da Verdade inflamou os militares mas, antes dela, a gênese da derrocada estava no 3o Plano Nacional de Direitos Humanos.
Como ficam os negacionistas e a extrema-direita em meio às mudanças de governo, ora Trump, ora Biden, ora Bolsonaro, ora Lula?
Esse cenário de radicalização não depende só de governos, não vai acabar com uma eleição x ou y. Ele pode ser aprofundado com governos de direita ou de extrema-direita. O cenário hoje é regressivo, não polarizado. É um momento em que se tem uma hegemonia conservadora, ultraconservadora, e radicalizada, por isso de extrema-direita. Essa diferença é crucial, entre uma direita que aceita as regras do jogo, a direita que se consolidou no pós-guerra, e o que está acontecendo agora com partidos de extrema-direita. Há uma série de elementos novos, como a internet e a reconfiguração do trabalho. E voltando à questão da ciência, há uma crise, sim, mas orçamentária, que atravessa governos de centro-esquerda e de centro-direita, não é exclusiva dos governos de extrema-direita. Mas não é sobre isso que as pessoas estão falando.
Saiba mais sobre o livro “Negacionismos & Extrema-Direita”.
Autor: José Szwako
Editora: Telha
Ano de publicação: 2025
Número de páginas: 232
Preço: R$ 72,00







