“Qualquer pessoa pode aprender sobre um tema complexo, como é o caso da edição genética, e deve poder discutir sobre o tema e ajudar a pensar decisões que afetam a vida de todos nós”. É assim que Carla Martelli, coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa Participação e Democracia da (GEPPADE/UNESP) define a premissa do movimento que originou o livro “Edição Genética em debate: a experiência participativa de uma Assembleia Cidadã”, do qual é uma das organizadoras.
Com linguagem acessível, o livro detalha a realização de uma Assembleia Cidadã no Brasil em 2023, uma iniciativa que reuniu pesquisadores e cidadãos brasileiros de diversas origens para debater a edição genética via tecnologia CRISPR. A obra destaca a importância de democratizar o conhecimento técnico, defendendo que o diálogo entre cientistas e a sociedade civil é essencial para decisões éticas na área da saúde.
O livro articula o caso da assembleia sobre edição genética com o debate mais amplo sobre participação. Martelli ressalta que a participação democrática fortalece a ciência ao conectar o progresso tecnológico com as demandas e vivências da população.
A ASSEMBLEIA CIDADÃ
O projeto brasileiro, liderado por pesquisadores da UFMG em colaboração com outras instituições nacionais e internacionais, focou especificamente no uso da tecnologia CRISPR na agricultura. Descoberta nas últimas décadas, esta tecnologia permite a alteração radical do DNA de seres humanos e outros organismos. Possui aplicações promissoras na saúde e na agropecuária.
Apesar do potencial, o debate científico é atravessado por riscos geopolíticos, ambientais e dilemas éticos. Assim, o objetivo da Assembleia foi debater os prós e contras da aplicação da tecnologia na agricultura, envolvendo as perspectivas de especialistas, cidadãos afetados e políticos.
Foram recrutados 26 participantes com o auxílio de uma empresa de pesquisa, sendo assegurada a presença de pessoas de todas as regiões do país, bem como a diversidade de perfis sócio-econômicos, educacionais, religiosos, ocupacionais, raciais e de gênero.
O processo foi estruturado em fases de aprendizado e debate, começando por uma formação básica com materiais (cards, vídeos, podcasts, textos) enviados via WhatsApp para nivelamento de conhecimento. Houve discussões contínuas no grupo de mensagens e quatro encontros online. Os participantes tiveram ainda contato direto com especialistas que apresentaram visões variadas sobre o tema. Por fim, houve a elaboração de demandas e sugestões de regulamentação para a tecnologia CRISPR.
A Assembleia Cidadã foi além do exercício acadêmico, gerando resultados no cenário político e científico nacional. Além do envio das recomendações formuladas pelos cidadãos às autoridades nacionais envolvidas com a temática, o projeto foi tema de uma audiência pública na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado Federal, onde as recomendações da Assembleia foram oficialmente encaminhadas.
Martelli conta que o processo resultou em um aprendizado mútuo entre organizadores, especialistas e cidadãos, alterando percepções sobre a distribuição de ganhos e perdas no desenvolvimento científico. O livro consolida a experiência e serve como um registro acadêmico e prático da iniciativa.
O livro aborda a fundamentação teórica sobre participação, deliberação e ciência, detalha os preparativos e a execução da Assembleia e apresenta dados de avaliação do experimento. Não apenas celebra o sucesso do projeto, mas também aponta os limites da experiência e dialoga com as teorias democráticas contemporâneas. Liderado pela UFMG, o projeto contou com a colaboração da UNESP, Universidade Federal de Goiás (UFG) e Universidade Estadual de Maringá (UEM).
A Assembleia Cidadã brasileira não é um evento isolado, mas parte de um movimento transnacional iniciado pelo Centro para Democracia Deliberativa e Governança Global da Universidade de Canberra (Austrália), que defende a integração entre ciência, divulgação científica e democracia. O projeto baseia-se na ideia de que qualquer cidadão, independentemente de sua formação técnica, possui capacidade de aprender sobre temas complexos (como edição genética) e oferecer saberes relevantes para decisões que impactam a vida coletiva.
As duas edições mais recentes do Radar Participa tratam de iniciativas semelhantes realizadas na Austrália e na França.
Ficha técnica
Título: Edição Genética em debate: a experiência participativa de uma Assembleia Cidadã
Autores: Filipe Mendes Motta, Yurij Castelfranchi, Ricardo Fabrino Mendonça, Carla Almeida, Carla Gandini, Giani Martelli, Cláudia Feres Faria, Fernando Filgueiras, Lucas Veloso, Mateus Ferrari Canela e Victor Menegassi
ISBN: 978-65-87808-54-3
Páginas: 160
Publicação: 2025
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