Pesquisadores do INCT Participa acompanharam debates e apresentaram reflexões durante o congresso anual da Latin American Studies Association (LASA), realizado entre os dias 26 e 30 de maio, em Paris. Considerado o principal encontro internacional dedicado aos estudos latino-americanos, o evento reuniu pesquisadores de diferentes países para discutir temas relacionados à política, democracia, participação, movimentos sociais e transformações na região.
Entre os destaques apontados pelos participantes esteve o fortalecimento de pesquisas voltadas às relações entre movimentos sociais, partidos políticos e Estado. Para Debora Rezende de Almeida, professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB) e pesquisadora do Resocie, os trabalhos apresentados evidenciaram um interesse crescente em compreender como os movimentos sociais influenciam não apenas a formulação, mas também a implementação de políticas públicas.
Segundo a pesquisadora, outro aspecto que chamou atenção foi a necessidade de aprofundar análises sobre o papel de atores econômicos e do mercado nessas relações. Embora o tema ainda apareça de forma incipiente na literatura, Debora avalia que ele representa uma agenda promissora para os estudos sobre participação e democracia. “Aparece nos textos, embora ainda não trabalhado analiticamente, não teorizado, e acho que é um ponto que também nós do INCT e que estudamos participação precisamos fazer mais investimento no Brasil”, observou.
Do ponto de vista metodológico, a pesquisadora destacou o avanço de estudos comparativos entre países latino-americanos e de pesquisas de longa duração, capazes de acompanhar, ao longo de décadas, os processos pelos quais movimentos sociais passam a influenciar instituições estatais. Também chamou atenção a combinação de diferentes estratégias de pesquisa, reunindo métodos qualitativos e quantitativos, entrevistas, análise documental, análise de redes e estudos participativos desenvolvidos em parceria com os grupos pesquisados.
Para Debora, os debates reforçam o potencial de uma agenda comparativa latino-americana capaz de explicar as diferenças nos padrões de interação entre Estado e sociedade em distintos contextos nacionais. Ao mesmo tempo, ela avalia que o intercâmbio entre pesquisadores da região pode ampliar a circulação do conhecimento produzido no Brasil e fortalecer o diálogo acadêmico sobre participação, representação e democracia.
A importância da LASA como espaço de construção de redes de pesquisa também foi ressaltada pela professora. Segundo ela, o encontro oferece oportunidades para aproximar pesquisadores que frequentemente trabalham sobre questões semelhantes, mas ainda mantêm pouco diálogo entre si. Com a próxima edição do congresso prevista para ocorrer no México, em 2027, a expectativa é ampliar a presença de pesquisadores brasileiros e fortalecer colaborações internacionais.
Outro conjunto de discussões destacado durante o evento diz respeito às transformações conceituais no campo dos estudos sobre movimentos sociais. Adrian Gurza Lavalle, coordenador do INCT Participa e do Núcleo de Democracia e Ação Coletiva (NDAC/Cebrap), observou que diversas mesas apontaram limites no uso tradicional da categoria “movimentos sociais” para compreender a crescente diversidade de formas de ação coletiva.
De acordo com o pesquisador, diferentes trabalhos propuseram ampliar o repertório conceitual utilizado na área, incorporando noções como ativismos, campanhas e ciclos de protesto. A mudança busca oferecer ferramentas analíticas mais adequadas para compreender fenômenos que nem sempre se encaixam nas definições clássicas de movimentos sociais, embora envolvam mobilização coletiva e engajamento político.
Outro tema recorrente foi a revisão da categoria “eventos de protesto”. Segundo Adrian, pesquisadores vêm argumentando que o conceito reúne fenômenos muito distintos sob uma mesma denominação, o que pode dificultar a compreensão das dinâmicas específicas de mobilização. Nesse sentido, diferentes estudos defenderam abordagens mais detalhadas e categorias analíticas mais refinadas.
Nas mesas coordenadas pelo NDAC, o debate concentrou-se ainda na necessidade de revisar a noção de “demandas”, frequentemente utilizada para descrever reivindicações apresentadas por movimentos sociais. A proposta apresentada pelos pesquisadores foi diferenciar os diversos processos de institucionalização que podem decorrer dessas reivindicações, distinguindo, por exemplo, leis, instrumentos, órgãos, organizações e cargos públicos. Para o grupo, essa diferenciação permite compreender de forma mais precisa os efeitos institucionais produzidos pela ação coletiva.
Indicação de leitura
Durante o encontro, o pesquisador José Szwako, do IESP-UERJ e do NDAC/Cebrap, participou do lançamento de uma obra dedicada às disputas em torno dos direitos sexuais e reprodutivos na América Latina. Publicado em inglês, o livro “Feminism and Anti-Gender Mobilizations in Latin America” reúne análises sobre estratégias de defesa desses direitos e sobre as mobilizações contrárias a eles em diferentes países da região.
Szwako assina um capítulo sobre negacionismo e mobilização antiaborto no Brasil. Segundo o pesquisador, a publicação oferece um panorama amplo das disputas políticas envolvendo direitos reprodutivos e examina, no caso brasileiro, tanto as estratégias adotadas por movimentos feministas na defesa de direitos reprodutivos e sexuais, quanto a atuação de diferentes áreas do governo federal para cercear estes direitos durante o período do bolsonarismo.





