Lula foi o candidato mais votado em cerca de 60% dos municípios com maior participação partidário-eleitoral no primeiro turno de 2026. Nos municípios com menor participação, Flávio Bolsonaro liderou em aproximadamente dois terços.
Esse é o resultado encontrado pelo IPar-eleitoral municipal, índice criado pelo Observatório Participa (OPar) do INCT Participa, que combina dados eleitorais do TSE sobre o envolvimento da população com o processo eleitoral, considerando a filiação partidária (variação de uma eleição a outra), o comparecimento às urnas e o alistamento eleitoral não obrigatório de jovens de 16 e 17 anos.
Combinadas, estas três informações agregadas produzem uma pontuação de 0 a 100, permitindo comparar os municípios em seu nível de participação partidário-eleitoral. Assim, o IPar reúne informações sobre formas distintas de participação partidário-eleitoral para descrever o envolvimento eleitoral da população em cada município.
O mapa abaixo representa a distribuição do IPar eleitoral em 5.566 municípios, distribuídos em sete faixas de cor com quantidades de municípios aproximadamente iguais. Essa divisão facilita a comparação. No Nordeste, as cores mais escuras, que indicam pontuações maiores do Ipar, são frequentes em áreas do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.
Na região Norte, Roraima e Tocantins também têm concentrações de valores altos, assim como, na região Sul, partes de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Em grandes áreas do Sudeste e do Centro-Oeste, predominam os tons mais claros, que indicam menor participação eleitoral, de acordo com o índice. Apesar de algumas tendências regionais aparentes, também existem diferenças dentro das regiões, até mesmo entre municípios vizinhos.
Cabe notar que o tamanho dos territórios, porém, pode enganar, pois ocupar mais espaço no mapa não significa ter mais habitantes ou eleitores. As diferenças entre os municípios são visíveis.

Para verificar a relação entre participação partidário-eleitoral e os resultados das eleições no primeiro turno, dividimos os municípios em dois grupos com o mesmo número de cidades, com um corte de 39,26 no índice do IPar. Assim, criamos um conjunto com IPar alto, com aqueles acima desse corte, e outro de IPar baixo, com os que ficam abaixo do corte.
O segundo mapa, portanto, indica a divisão das cidades com 4 cores, indicando qual candidato obteve mais votos no município e o nível de participação partidário-eleitoral. A divisão em dois grupos tem o objetivo de simplificar a comparação, mostrando padrões claros. No entanto, municípios muito próximos do corte podem ficar em grupos diferentes, apesar de terem pontuações semelhantes.
Por isso, “alto” e “baixo” devem ser entendidos como os nomes dos conjuntos usados nesta análise, e não como tipos de municípios uniformemente separados por uma diferença grande de participação partidário-eleitoral. A mesma classificação é utilizada nos gráficos seguintes sobre a contagem das cidades e a soma dos votos.

No mapa predominam duas cores. A cor vermelha escura indica as localidades com alta participação em que Lula venceu, enquanto a cor azul clara indica as cidades com baixa participação em que Flávio Bolsonaro ficou à frente. A combinação de IPar alto e maior votação em Bolsonaro aparece no Sul e também em áreas de outras regiões, como Roraima.
Portanto, aqui também fica evidente uma associação territorial entre participação partidário-eleitoral e voto no primeiro turno da eleição de 2026. Embora Lula tenha vencido em mais municípios de IPar alto, a maior participação também acompanha apoio a Flávio Bolsonaro em parte do território, concentradamente no Sul.
O mapa evidencia padrões gerais porque a organização do IPar e dos votos em quatro categorias produz contrastes. O mapa torna visível onde cada candidatura liderou, mas não mostra o tamanho da vantagem. Essa escolha facilita a leitura territorial, ao custo de deixar de fora parte da competição existente em cada localidade.
O índice, todavia, reúne informações sobre envolvimento partidário-eleitoral que podem estar presentes em municípios favoráveis a diferentes candidaturas, em combinações distintas nos diferentes municípios. Assim, é pertinente manter em mente que as cores informam quem ficou em primeiro lugar em determinada cidade, mas seus moradores não votaram todos da mesma forma. Uma localidade colorida de vermelho também pode reunir muitos votos em Flávio Bolsonaro, assim como uma localidade azul pode ter uma votação expressiva em Lula.
Quando contamos os municípios, a diferença fica mais nítida. São 2.771 em cada um. No grupo de IPar alto, Lula liderou em 1.704 municípios, ou 61,5%, e Flávio Bolsonaro em 1.067, equivalentes a 38,5%. No de IPar baixo, Flávio ficou à frente em 1.817, ou 65,6%, enquanto Lula liderou em 954, correspondentes a 34,4%.

A proporção de municípios liderados por Lula foi cerca de 27 pontos percentuais maior no grupo de IPar alto. A diferença entre os grupos é expressiva, mas não informa a proporção de eleitores que escolheu cada candidato. Os 61,5% de municípios favoráveis a Lula no grupo de IPar alto, por exemplo, não correspondem a 61,5% dos votos ou dos eleitores desse grupo.
Nessa contagem, uma capital vale tanto quanto um município pequeno. Para saber o peso eleitoral dos dois grupos, precisamos passar do número de municípios ao número de pessoas aptas a votar, distinguindo esse total dos votos efetivamente recebidos pelas candidaturas. Isso muda a interpretação porque a quantidade de eleitores varia entre as cidades e porque nem todas as pessoas aptas comparecem ou dão um voto válido.
Para visualizar o tamanho desses eleitorados, o terceiro mapa representa cada município por um círculo cuja área é proporcional ao número de eleitores aptos. O mapa mantém as quatro cores do segundo mapa, mas ajusta as posições dos círculos para evitar sobreposições. Os limites estaduais em cinza servem apenas como referência geográfica.

A diferença em relação ao mapa anterior está na característica que ocupa espaço na imagem. Antes, um território extenso e eleitorado reduzido aparecia com uma área grande, dando a impressão que aquela localidade teria mais “peso” do que cidades menores com eleitorado maior. Agora, um município com muitos eleitores ganha destaque mesmo que ocupe uma área pequena. Assim, lugares pouco visíveis no mapa territorial passam a ter uma presença visual maior, que corresponde ao tamanho de seu eleitorado.
Neste mapa fica clara a divisão territorial do voto e do engajamento eleitoral detectado pelo IPar. A região Sul e Sudeste ocupa uma grande área, com baixo engajamento e vitória de Flávio Bolsonaro. Exceções de destaque são as capitais São Paulo e Porto Alegre.
Ao contrário, no Nordeste fica evidente a presença de alta participação e vitória de Lula, com exceção de Maceió. Norte e Centro-Oeste, que antes apresentavam uma área territorial grande, aparecem como áreas esvaziadas devido ao baixo número de eleitores, salvo algumas cidades.

O grupo de IPar alto reúne 55,78 milhões de eleitores aptos, o de IPar baixo, 99,61 milhões. Quase o dobro, apesar de ambos terem o mesmo número de municípios. Somando esses eleitorados e calculando a participação de cada grupo, verificamos que o de IPar baixo concentra cerca de 64,1% das pessoas aptas a votar neste recorte. O equilíbrio na quantidade de cidades convive, assim, com uma distribuição bastante desigual do eleitorado.
Nos municípios de IPar alto, Lula recebeu 23,23 milhões de votos, e Flávio Bolsonaro, 18 milhões. Nos de IPar baixo, Flávio somou 36,97 milhões, contra 29,78 milhões de Lula. Um resultado que pode passar despercebido é que os dois candidatos receberam mais votos, em números absolutos, no grupo de IPar baixo. Lula lidera no grupo de maior participação, mas é no outro, com eleitorado maior, que reúne mais votos.
Neste gráfico, os percentuais foram calculados sobre todo o eleitorado apto, incluindo quem não compareceu. Lula recebeu votos de 41,6% desse eleitorado no grupo de IPar alto e de 29,9% no de IPar baixo. Para Flávio, os valores foram de 32,3% e 37,1%, respectivamente. As diferenças absolutas ajudam a completar a comparação. Subtraindo os votos de Flávio dos de Lula no grupo de IPar alto, a vantagem de Lula é de aproximadamente 5,23 milhões. Fazendo a conta no grupo de IPar baixo, Flávio tem uma vantagem de cerca de 7,19 milhões. A segunda supera a primeira em aproximadamente 1,96 milhão de votos.
Outro dado relevante deste último gráfico é a categoria de “Outros”, que correspondem àqueles que votaram em outros candidatos, branco, nulo ou se abstiveram de comparecer às urnas. É este eleitorado que está em disputa agora no segundo turno. Nos municípios de IPar alto, esta parcela da população é menor quando comparada com os municípios de menor engajamento eleitoral, tanto em porcentagem quanto no número absoluto de eleitores. São aproximadamente 14,56 milhões, ou 26,1% dos aptos, no primeiro grupo, e 32,87 milhões, ou 33%, no segundo.
Esta análise nos permite descrever onde cada candidatura recebeu apoio considerando o envolvimento partidário-eleitoral da população, considerando as três dimensões que integram o índice, isto é, de modo conjunto. Por isso, a contração desse apoio não corresponde necessariamente a em quem votaram os jovens de 16 e 17 anos que tiraram o título de eleitor, ou aos filiados a partidos, por exemplo.
Também não podemos concluir que aumentar o IPar faria crescer a votação de algum dos candidatos. Os dados do IPar mostram o nível de envolvimento partidário-eleitoral e o resultado eleitoral de cada município, sem estabelecer uma relação de causa e efeito. Ainda assim, ajudam a compreender a geografia política nacional, a relação entre engajamento eleitoral da população e os resultados do primeiro turno das eleições.
Conheça o IPar-Eleitoral
A participação partidário-eleitoral é proporcionalmente maior nos municípios pequenos, do interior e menos urbanizados do Brasil. É o que mostra o Índice da Participação Partidário-Eleitoral nos Municípios Brasileiros (IPar-Eleitoral), índice desenvolvido pelo Observatório Participa (OPar), no âmbito do INCT Participa.
Construído com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) referentes a 2024, o índice oferece um diagnóstico inédito sobre os vínculos da população com as instituições eleitorais e partidárias na esfera municipal. Para isso, reúne três formas de participação: o comparecimento às urnas, o alistamento eleitoral voluntário de jovens de 16 e 17 anos e a filiação partidária. Confira o IPar do seu município.





