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Poucas mulheres chegam à Câmara dos Deputados sem experiência prévia de participação, mostra pesquisa
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Poucas mulheres chegam à Câmara dos Deputados sem experiência prévia de participação, mostra pesquisa

Como se transformaram os caminhos percorridos pelas mulheres até a Câmara dos Deputados nas últimas duas décadas? Uma pesquisa desenvolvida por Carla Almeida, da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e do INCT Participa, Ednaldo Ribeiro, também da UEM, e Ligia Lüchmann, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), investigou as trajetórias de deputadas federais brasileiras entre 2002 e 2022 para compreender as mudanças nas conexões entre sociedade civil, partidos políticos e representação política feminina.

Intitulado “Representação política de mulheres, sociedade civil e partidos políticos: um estudo do perfil associativo de mulheres parlamentares no Brasil (2002-2022)”, o trabalho será apresentado na quinta-feira, 6 de agosto, das 16h às 18h, no 15º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), na Área Temática Eleições e Representação Política. A pesquisa examinou seis legislaturas e reuniu informações sobre 226 deputadas distintas.

O estudo parte da compreensão de que a chegada à política institucional geralmente é antecedida por outras experiências de participação social. Sindicatos, movimentos sociais, associações comunitárias, organizações religiosas e entidades profissionais estão entre os espaços nos quais muitas lideranças constroem vínculos, acumulam experiências e desenvolvem suas trajetórias antes de disputar uma eleição.

“Poucas lideranças chegam à política institucional sem experiências prévias de participação. As organizações da sociedade civil funcionam como pontes entre a sociedade e o Parlamento e ajudam a compreender os diferentes caminhos que levam as mulheres à representação política”, explica Carla Almeida.

Sindicalismo perde espaço nas trajetórias parlamentares

Os resultados indicam que esses caminhos passaram por uma transformação importante ao longo do período analisado. Organizações tradicionalmente ligadas ao sindicalismo, às associações profissionais, aos direitos humanos e à atuação comunitária perderam espaço nas trajetórias das deputadas federais. A proporção de parlamentares com vínculos sindicais, por exemplo, caiu de 36,5% na primeira legislatura examinada para 14,3% na última.

A mudança sinaliza o enfraquecimento de um modelo de recrutamento político que ganhou força nas décadas posteriores à redemocratização e que tinha no movimento sindical uma de suas principais bases.

Paralelamente, ganharam espaço outros perfis de engajamento. A pesquisa identificou o crescimento de vínculos com organizações religiosas, iniciativas de renovação política, movimentos anticorrupção e contramovimentos conservadores. Entre as deputadas de esquerda, aumentou especialmente a presença de lideranças ligadas às lutas antirracista, indígena e LGBTQIA+, o que aponta para a formação de novos circuitos de recrutamento político nesse campo.

A atuação em organizações voltadas às mulheres, por sua vez, aparece nas trajetórias de parlamentares de diferentes orientações ideológicas. De acordo com o estudo, esse resultado demonstra que a defesa de pautas relacionadas às mulheres pode assumir sentidos e integrar projetos políticos distintos, conforme o contexto partidário em que está inserida.

Bancada feminina também passou por recomposição

As mudanças nas trajetórias associativas ocorreram ao mesmo tempo que uma reorganização partidária da bancada feminina na Câmara. Entre 2002 e 2022, a participação de deputadas de partidos de esquerda caiu de 42,3% para 31,1%. No mesmo período, a presença de representantes de partidos de direita cresceu de 13,5% para 31,9%.

Essa recomposição ajuda a explicar parte das transformações identificadas pela pesquisa, já que os vínculos construídos pelas parlamentares antes de sua eleição também estão relacionados aos campos políticos e partidários dos quais fazem parte.

“Não existe um único percurso de entrada das mulheres na política. O que os dados revelam é a coexistência de diferentes formas de ativismo e participação social, vinculadas a projetos políticos que também podem ser bastante distintos entre si”, destaca Carla Almeida.

Ao acompanhar duas décadas de mudanças, o estudo mostra que a diversificação dos espaços de participação social foi acompanhada pela ampliação dos caminhos que conduzem mulheres à Câmara dos Deputados. Os resultados contribuem, assim, para compreender não apenas quem são as parlamentares brasileiras, mas também como vêm se reorganizando as relações entre sociedade civil, partidos políticos e representação política feminina no país.

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