Por Rodrigo Martins, Adrian Gurza Lavalle, Carla Almeida, Lizandra Serafim e Ana Carolina Vaz
No segundo turno de 2026, Lula venceu em cerca de 63% dos municípios em que a população apresenta maior envolvimento partidário-eleitoral e em 40% daqueles com participação baixa. Porém, foi nas cidades de menor engajamento da população que conquistou mais novas vitórias e teve maior ganho relativo sobre Flávio Bolsonaro.
Dentre as cidades com alta participação partidária-eleitoral, a maioria daquelas que haviam votado majoritariamente por Flávio no primeiro turno, continuaram dando vitória a ele, com apenas 54 inversões favoráveis a Lula.
Já dentre as cidades com menor envolvimento da população, onde Flávio venceu em mais municípios no primeiro turno, Lula reverteu a votação em 156 delas. A comparação dos 5542 municípios mostra como a participação eleitoral e o voto no segundo turno se distribuem pelo país.
O IPar eleitoral municipal foi criado pelo Observatório Participa (OPar), do INCT Participa, para comparar o envolvimento da população com o processo eleitoral. O índice combina três informações: a variação da filiação partidária entre eleições, o comparecimento às urnas e o alistamento eleitoral não obrigatório de jovens de 16 e 17 anos. Reunidas em uma escala de 0 a 100, elas permitem comparar os municípios pelo nível de participação partidária-eleitoral.
Para comparar os resultados eleitorais entre os dois turnos, mantivemos as duas faixas de municípios usadas no relatório relativo ao primeiro turno. As 2771 cidades com maior IPar do primeiro turno formam a faixa de IPar alto, e as outras 2771, a de IPar baixo.
Usamos o IPar do primeiro turno como referência para examinar o comparecimento no segundo e o ganho de votos de Lula entre os turnos. Esse cruzamento permite distinguir os níveis de participação partidária-eleitoral associados a cada candidato nas diferentes regiões do país nas eleições do primeiro turno e a intensidade das mudanças nos resultados municipais em cada faixa do índice e região. O Gráfico 1 apresenta as medidas de comparecimento e de crescimento eleitoral de Lula.

A taxa de comparecimento é a porcentagem dos eleitores aptos que foram às urnas em cada turno (A). Sua variação é expressa em pontos percentuais (B). O crescimento dos votos de Lula compara sua votação no segundo turno com a do primeiro, em porcentagem, pela média dos crescimentos de votos nos municípios e pelo crescimento da soma dos votos em cada faixa (C). Já o ganho na participação entre os candidatos mede, em pontos percentuais, a mudança da parcela de Lula na soma dos votos dele e de Flávio (D).
O comparecimento médio nas cidades de IPar alto passou de 82.11% no primeiro turno para 82.84% no segundo, uma alta de 0.73 ponto percentual (de 46.013.893 para 46.609.127 votos, um aumento de 595.234). Nas de IPar baixo, passou de 76.43% para 78.35%, com aumento de 1.92 ponto (de 76.948.030 para 79.235.289, um aumento de 2.287.259). Embora o grupo de municípios com IPar alto tenha mantido o comparecimento mais elevado, aquele com IPar baixo obteve maior aumento. Isso aparece também de modo claro na frequência das cidades, uma vez que o comparecimento cresceu em 1999 das 2771 cidades de IPar alto e em 2422 das 2771 de IPar baixo.
O Mapa 1 cruza o IPar do primeiro turno com a taxa de comparecimento no segundo. Para tornar a distribuição visível, dividimos as cidades em duas metades pela taxa de comparecimento final, com corte de 80.93%, a mediana de comparecimento. Das cidades de IPar alto, 2030, ou 73.3%, ficaram acima desse corte. Entre as de IPar baixo, foram 741, ou 26.7%. O mapa mostra o nível de comparecimento alcançado no segundo turno. O Gráfico 1 também informa quanto ele mudou em cada faixa.

Mapa 1. IPar do primeiro turno e comparecimento no segundo turno. Azul indica comparecimento acima da mediana de 80,93% dos aptos e ocre, até esse valor. Tons escuros representam IPar alto e tons claros, IPar baixo. O mapa representa o nível no segundo turno, não a mudança entre os turnos.
O mapa evidencia que onde há mais participação partidária-eleitoral houve mais votos. A relação foi identificada nos resultados do primeiro turno e se manteve nos do segundo. A combinação de IPar alto e comparecimento acima da mediana reúne 58.6% das cidades do Nordeste e 57.5% das do Sul. No Sudeste e no Centro-Oeste, predominam cidades de IPar baixo e comparecimento até a mediana, com 60.3% e 71.1%, respectivamente.
No Norte, a combinação mais frequente é IPar alto e comparecimento até a mediana, presente em 49.4% das cidades. Note-se, embora o Mapa 1 não identifique os candidatos votados, oferece uma imagem que corresponde à geografia da distribuição do voto. As duas regiões que concentram engajamento partidário-eleitoral e comparecimento altos correspondem ao Nordeste e ao Sul e também concentram a maior parcela de votos em Lula e em Flávio, respectivamente.
A análise conjunta dessas medidas também permite identificar que a relação entre elas persiste mesmo quando os municípios não são agrupados em duas faixas de IPar. Quanto maior o IPar inicial, maior tende a ser o comparecimento no segundo turno. No entanto, a interpretação dessa associação exige cautela pois o IPar inicial já incorpora o comparecimento do primeiro turno.
O maior aumento do comparecimento no grupo de IPar baixo também não identifica a origem dos novos votos de Lula. Nas comparações eleitorais, seu crescimento proporcional foi maior nessa faixa, mas ele terminou vencendo numa proporção maior de cidades de IPar alto. A contagem de vitórias mostra a diferença entre o desempenho final e o avanço entre os turnos.
Lula ampliou o número de vitórias nas duas faixas. Nos municípios com participação partidária-eleitoral alta, passou de 1704 para 1758 cidades, enquanto Flávio recuou de 1067 para 1013. Nas cidades com participação baixa , Lula passou de 954 para 1109 vitórias e Flávio, de 1817 para 1661. O saldo de novas cidades vencidas por Lula foi, portanto, maior na faixa de baixo envolvimento da população, com 155, contra 54 naquelas de alta participação. Mesmo perdendo municípios, Flávio continuou à frente em aproximadamente 60% das cidades de IPar baixo (contra 65.6% no primeiro turno), contra 37% de IPar alto. Lula aumentou sua presença onde tinha menos vitórias.

Gráfico 2. Municípios vencidos por Lula e Flávio nos dois turnos. Cada barra reúne as mesmas 2.771 cidades de uma faixa do IPar. O segundo turno teve um empate na faixa de IPar baixo. A contagem de cidades não considera o tamanho de seus eleitorados.
O Mapa 2 mostra onde Lula ampliou sua vantagem de votos na disputa com Flávio. Para medir esse ganho relativo, calculamos a porcentagem de votos em Lula na somo de votos dele e de Flávio, em cada turno. Se essa porcentagem passa de 55% para 58%, por exemplo, o ganho é de três pontos percentuais.
Os votos em outras candidaturas (no primeiro turno) ficam fora dos cálculos, para garantir a mesma base de comparação. A média desse ganho foi de 2.74 pontos nas cidades onde o envolvimento da população é baixo e de 1.95 onde é alto. O mapa cruza as faixas do IPar com a divisão dos municípios em duas metades, ganho até 2.37 pontos ou acima desse valor.

Mapa 2. IPar e ganho relativo de Lula. Roxo indica ganho acima de 2,37 pontos percentuais e ocre, ganho até esse valor, incluindo reduções. Os tons escuros indicam IPar alto e os tons claros, IPar baixo. O ganho considera apenas os votos dos dois candidatos que foram ao segundo turno.
No Nordeste, 61.3% das cidades combinam participação partidária-eleitoral alta e ganho até 2.37 pontos. No Sudeste, 60.9% combinam IPar baixo e ganho acima desse valor. Esse segundo cenário engloba 538 das 644 cidades de São Paulo e 72 das 92 do Rio de Janeiro. Lula teve alta votação em muitas cidades do Nordeste, mas conquistou mais espaço entre os turnos em grande parte do Sudeste, em municípios com IPar baixo. Note-se, inclusive em diversas cidades do Sul ocorreu um ganho acima de 2.37 pontos percentuais.
No Centro-Oeste, 53.7% das cidades combinam baixo engajamento e ganho acima de 2.37 pontos, proporção que chega a 69.6% em Mato Grosso do Sul e a 53.7% em Goiás. No Norte, a combinação mais frequente é IPar alto e ganho até esse valor; combinação presente em 43.2% dos municípios. A tendência de ganhos maiores onde o IPar foi menor aparece mais no Acre, no Amazonas e no Pará. No Sul, o ganho acima de 2.37 pontos ocorre tanto com IPar alto, em 32.7% das cidades, quanto com IPar baixo, em 30.2%. Na região, Santa Catarina apresenta a relação mais forte entre IPar menor e ganho maior.
Em síntese, municípios com maior participação partidário-eleitoral no primeiro turno tiveram, em média, maior taxa de comparecimento no segundo. A combinação de IPAR baixo Os ganhos de Lula entre os turnos, todavia, foram maiores em municípios de baixa participação, sobretudo no Sudeste e no Centro-Oeste. Já no Nordeste e no Norte, predominou a combinação de envolvimento da população alto e ganhos menores; enquanto no Sul, os ganhos maiores ocorreram em municípios com ambos os níveis de participação.
Os mapas dos municípios acabam dando destaque às cidades de maior tamanho, embora elas nem sempre tenham mais eleitores. Para tornar clara a diferença entre eleitores e território, o Mapa 3 repete as cores do mapa anterior, mas representa cada município por um círculo proporcional ao eleitorado apto no segundo turno. São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades populosas passam a ter uma presença visual que corresponde ao número de pessoas que podiam votar.

Mapa 3. IPar e ganho relativo de Lula, com a área dos círculos proporcional ao eleitorado apto no segundo turno. As cores e os cortes são os mesmos do Mapa 2. Os círculos foram deslocados para evitar sobreposição. Seu tamanho representa eleitores aptos, não quantidade de votos recebidos nem novos votos de Lula.
As 1759 cidades de IPar baixo e ganho acima de 2.37 pontos representam 31.7% dos municípios, mas reúnem 55.6% do eleitorado, ou 86.42 milhões de pessoas aptas a votar. Há também 1759 cidades de IPar alto e ganho até esse valor, porém elas concentram apenas 15.9% dos eleitores, ou 24.65 milhões. Assim, fica claro que a mesma quantidade de cidades pode ter um peso eleitoral muito diferente devido ao tamanho de seu eleitorado.
São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador estão representados no mapa por círculos de IPar baixo e ganho eleitoral maior. Manaus, Belém e Fortaleza apresentam IPar alto com ganho eleitoral alto. Porto Alegre tem IPar baixo e ganho eleitoral menor. Ao tornar essas diferenças mais visíveis, o mapa ajuda a entender porque contar o número de cidades não basta para avaliar o grau da mudança do resultado eleitoral.
As duas faixas de IPar reúnem o mesmo número de municípios, mas têm eleitorados de magnitudes diferentes. São 55.78 milhões de eleitores aptos nas cidades de IPar alto e 99.61 milhões nas de IPar baixo. Nestas últimas, Lula recebeu 36.65 milhões de votos no segundo turno e Flávio, 39.84 milhões. Nas cidades de IPar alto, foram 26.53 milhões para Lula e 18.75 milhões para Flávio. Ambos somaram mais votos na faixa que concentra um número maior de eleitores.
Em relação ao primeiro turno, Lula acrescentou 3.30 milhões de votos nas cidades de IPar alto e 6.88 milhões nas de IPar baixo. Flávio também cresceu em votos, mesmo vencendo em menos municípios. Foram cerca de 750 mil votos adicionais na faixa de IPar alto e 2,87 milhões na de IPar baixo. Com isso, a vantagem de Lula nas cidades de IPar alto passou de 5.23 milhões para 7.78 milhões de votos.
Nas de IPar baixo, Flávio permaneceu à frente, mas sua vantagem caiu de 7.19 milhões para 3.19 milhões. As cidades de IPar baixo correspondem a cerca de 61% da melhora da diferença de votos a favor de Lula. Esse aumento teve maior peso no total, apesar de não ter sido suficiente para passar à frente de Flávio na soma dos votos dessa faixa.

Gráfico 3. Votos de Lula e Flávio nas duas faixas do IPar inicial, em milhões. As anotações mostram a diferença de votos entre os candidatos. Lula ampliou a vantagem nas cidades de IPar alto. Flávio manteve a liderança nas de IPar baixo, com uma vantagem menor.
A comparação com o eleitorado apto também mostra a mudança do desempenho de Lula. Nas cidades de IPar baixo, os votos de Lula passaram de aproximadamente 30 para 37 em cada 100 pessoas aptas a votar. Nas de IPar alto, passaram de 42 para 48. Flávio também aumentou sua votação por eleitor apto nas duas faixas, de 37 para 40 nas cidades de IPar baixo, e de 32 para 34 nas de IPar alto. O total de eleitores aptos inclui quem se absteve ou votou em branco e nulo.
Em suma, Lula terminou o segundo turno vencendo em uma proporção maior de cidades com participação partidária-eleitoral alta. Porém, seu crescimento proporcional foi maior nas cidades de IPar baixo, onde reduziu a desvantagem sobre Flávio e concentrou a maior parte dos votos adicionais. Os mapas mostram onde isso ocorreu, evidenciando também o peso do eleitorado envolvido em cada município.
As cidades de com envolvimento partidário-eleitoral alto mantiveram maior comparecimento médio, enquanto as de IPar baixo tiveram maior aumento entre os turnos. Esses movimentos coexistem, como também coexistem a virada de votos entre as candidaturas do primeiro para o segundo turno, com o comparecimento de novos eleitores. O saldo desses movimentos foi favorável a Lula.
Conheça o IPar-Eleitoral
A participação partidário-eleitoral é proporcionalmente maior nos municípios pequenos, do interior e menos urbanizados do Brasil. É o que mostra o Índice da Participação Partidário-Eleitoral nos Municípios Brasileiros (IPar-Eleitoral), índice desenvolvido pelo Observatório Participa (OPar), no âmbito do INCT Participa.
Construído com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) referentes a 2024, o índice oferece um diagnóstico inédito sobre os vínculos da população com as instituições eleitorais e partidárias na esfera municipal. Para isso, reúne três formas de participação: o comparecimento às urnas, o alistamento eleitoral voluntário de jovens de 16 e 17 anos e a filiação partidária. Confira o IPar do seu município.





