Marina A. R. de Mattos Vieira e Izabel Cristina Custódio Santos, pesquisadoras vinculadas ao INCT Participa, assinam textos na edição de julho/agosto da Revista Reconexão Periferias, abordando participação indígena em arenas internacionais e o papel do afeto na atuação política de movimentos de mulheres negras.
No artigo “Vozes indígenas na ONU: desafios para a participação real”, Marina A. R. de Mattos Vieira recupera a trajetória da presença dos povos indígenas em arenas internacionais, desde a tentativa de Deskaheh, representante das Seis Nações da Confederação Iroquesa, de ser ouvido pela Liga das Nações, em 1923, até a participação indígena na COP 30, realizada em Belém em 2025.
A autora destaca a ampliação dos espaços conquistados pelos povos indígenas no sistema das Nações Unidas, como o Fórum Permanente sobre Questões Indígenas, a Relatoria Especial sobre os Direitos dos Povos Indígenas e o Mecanismo de Peritos sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Ao mesmo tempo, chama atenção para as limitações que ainda dificultam uma participação plena e autônoma. Entre elas estão o tempo reduzido para manifestações, a exigência de utilização das línguas oficiais da ONU e a ocupação de espaços destinados genericamente a organizações da sociedade civil, e não especificamente às organizações indígenas.
O artigo também aborda a experiência brasileira e a crescente atuação do movimento indígena em espaços internacionais. Marina destaca a participação de organizações indígenas em denúncias de violações de direitos e a relação cada vez mais presente entre a proteção dos territórios indígenas, a conservação da natureza e a agenda climática. Nesse percurso, a autora analisa a campanha “A resposta somos nós” e a participação indígena na COP 30, que reuniu cerca de 5 mil pessoas indígenas, mas também foi marcada por manifestações e reclamações sobre a falta de espaço para diálogo.
Ao final, Marina argumenta que, apesar dos avanços na presença indígena nas arenas globais e da crescente capacidade de traduzir suas demandas para os espaços diplomáticos, permanecem obstáculos estruturais à participação efetiva. A questão, portanto, não se limita ao acesso aos espaços internacionais, mas envolve a possibilidade de que vozes indígenas sejam efetivamente ouvidas e tenham poder de decisão sobre seus próprios direitos.
Já em “É na oralidade que a gente se encontra: afeto e acolhimento com movimentos de mulheres negras”, Izabel Cristina Custódio Santos parte de entrevistas realizadas durante sua pesquisa de mestrado com mulheres negras integrantes de movimentos de mulheres negras em Sergipe. Ao revisitar o trabalho de campo, a pesquisadora identifica o afeto como um elemento comum às conversas e como parte importante da prática política desses movimentos.
A partir dessa percepção, o artigo reflete sobre o papel do acolhimento, da escuta e da construção de vínculos. Para Izabel, essas práticas não são apenas consequências da convivência entre as integrantes dos grupos, mas constituem uma forma de fazer política. O compartilhamento de experiências fortalece vínculos, produz reconhecimento mútuo e contribui para que outras mulheres se reconheçam como sujeitas de suas próprias histórias.
A reflexão também atravessa a própria experiência da pesquisadora. Izabel relata como as relações construídas durante o trabalho de campo transformaram sua maneira de conduzir as entrevistas e sua compreensão sobre a pesquisa. Em vez de considerar o trabalho científico como uma atividade neutra voltada à observação de um objeto externo, passou a reconhecer que a pesquisa também transforma quem pesquisa.
A autora conclui que o afeto, o cuidado e o acolhimento podem ser compreendidos como dimensões centrais da ação política dos movimentos de mulheres negras em Sergipe. Os vínculos construídos nesses espaços contribuem para o cuidado e a proteção mútuos, fortalecem a atuação coletiva e criam condições para o surgimento de novas formas de resistência.
A Revista Reconexão Periferias, publicação da Fundação Perseu Abramo, tem caráter extensionista, e seu objetivo é espalhar o conhecimento em uma linguagem simples e direta. A publicação é bimestral e conta com ampla circulação em mais de 1100 organizações e movimentos de periferias mapeadas pela FPA.





